Código do Torcedor

A pedido do Atlético, os dirigentes dos três clubes mineiros vão se reunir com as “autoridades mineiras competentes” para discutir a possibilidade da volta das bandeiras no Mineirão. O presidente do Atlético quer ver a torcida do Galo balançando as bandeiras no Mineirão.
Ainda segundo a notícia, destas bem mal escritas, o Atlético acredita na concordância “destas autoridades” -a tais “autoridades mineiras competentes”.
Talvez elas façam uma concessão. Mas a tendência é manter um código rígido para melhorar o comportamento dos torcedores (esses fanáticos!) nos estádios.
Uma proposta simples de código a ser adotado nos estádios “tão logo seja possível”:
1) Fica proibido o torcedor entrar no Mineirão com bandeira do seu clube;
2) Fica mantida a proibição do uso de bebida alcoólica no estádio -a proibição é restrita aos torcedores das arquibancadas.
3) Fica proibido xingar o juiz de fedaputa -a mãe dele não tem culpa de ele não ter aprendido a jogar bola e ter que ser juiz.
4) Fica suprimido do Hino do Atlético o verso “Galo Forte, Vingador” por incitar a violência -o verso deve ser substituído por “Galo Forte, Beijador”.
5) Dentro ou fora do estádio, inclusive na imprensa, fica proibido o uso da expressão “mala preta” que passa a ser substituída por “mala branca” -fica entendido que a primeira expressão é uma manifestação odiosa de racismo. No máximo será admitida a expressão “mala loura”.
6) Fica proibido a torcida chamar o técnico de sua própria equipe de burro, quando fizer uma substituição errada -está decidido que ele come capim porque gosta, não porque seja um quadrúpede de orelhas grande e cabeça dura.
7) O primitivo apito usado pelos juízes deve ser substituído por uma flauta -preferencialmente doce.
8) Nenhum jogador poderá chutar uma bola no sentido ascendente em ângulo superior a 10º de inclinação e com força superior a 10kg, para segurança do torcedor.
9) Fica terminantemente proibido a torcida gritar olé quando seu time estiver ganhando por mais de três gols do adversário, quando o jogo estiver sendo transmitido por rádio ou televisão, ficando caracterizada a submissão da torcida da outra equipe a constrangimento público.
10) Recomenda-se ao torcedor a ficar em casa e ver o jogo que quiser pelo Premiere FC. Quem, em face da crise, não possa assinar a Sky, uma alternativa alegre, descontraída e responsável é o Caixa na Rádio Itatiaia -não há nenhum registro nos órgãos de Defesa do Consumidor de que ele tem alterado o resultado de algum jogo…

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Preconceito

Eu sempre disse com orgulho que não sou racista, não tenho preconceitos e não discrimino nada, nem ninguém. E, sinceramente, eu repetia isto tanto que até eu mesmo passei a acreditar. E com muitas histórias para contar, além de razões fundadas para ser um ente de outro planeta, que não se criou no meio destas penimbas culturais.
Pra começo de tudo, eu nasci pobre -além de pelado, careca e sem dente como todo mundo. Trabalho desde os cinco, seis anos de idade, para ajudar minha mãe a não deixar faltar o que comer para ela, eu e meus dois irmãos. Logo, nunca tive razão para me considerar diferente ou superior a ninguém. Preto, pobre, comunista, estudante, prostituta, tudo é gente que nem eu.
Agora, depois de velho, começo a desconfiar que tenho alguns preconceitos sim. Me flagrei me esquivando de duas filas nos caixas eletrônicos, porque tinha duas louras nestas filas. Pensei: aqui vai agarrar… Pra ser sincero, observando o andar da carruagem… melhor, da fila… vi que as duas filas agarraram mesmo… Nas louras!
Mas o danado mesmo tem sido editar as fotos que faço na rua para a coluna Paparazzi do Acontece. São fotos tiradas aleatoriamente, na rua, de pessoas, e publicadas, sem legenda, sem texto algum. O objetivo é nobre e simples: colocar no jornal pessoas que, pelo menos grande parte delas, nunca se veria num jornal.
No início eu peguei uma barra. O jornal saia e, quase todas as semanas, tinha ligações de gente brava, porque tinha sido fotografada na rua. Passado mais de um ano, a coluna caiu no gosto dos leitores (é a primeira página de qualquer leitor) e acabaram-se as reclamações.
A aceitação da coluna, no entanto, não foi um ato natural, decorrente do tempo só não. Eu tive que descobrir que as reclamações vinham basicamente de gente pobre e mulher feia. Hoje eu ainda tenho pavor de selecionar uma foto de alguém de um destes dois grupos. É encrenca na certa.
Quando eu diagnostiquei o problema, a solução foi natural. A partir da coluna seguinte entrei propositadamente com pessoas que também costumavam estar na coluna social, autoridades, gente importante flagradas fazendo coisas que qualquer pobre e mulher feia também faz, como andar na rua, ir ao supermercado etc.
A coluna que até então estava sendo considerada como coisa de pobre, ganhou importância.
O que ainda não achei solução é para mulher feia. Se faço a coluna só com gente feia, fica um horror. Quando entro com mulheres bonitas e gostosas, as feias ficam piores ainda.
Eu tenho aliviado minha consciência deste mal súbito, acreditando que o preconceito não está em mim. São as circunstâncias. Afinal, pra mim, mulher continua sendo mulher, feia ou bonita. Até porque, primeiro, mulher feia e mulher bonita, é sinônimo de mulher pobre e mulher rica. Segundo, porque a diferença entre mulher feia e mulher bonita, some depois da terceira dose.

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